Os Cegos do Outro Lado
O ocidente é realmente estranho.
Não nos cansamos do papel de bobo, estamos sempre desejando mais. Bem, comigo não seria diferente, e isso ficou bem claro no episódio que se segue:
As aulas de ciências sociais (Antropologia, Política e Sociologia) são sempre intrigantes e não esclarecedoras, os debates nos chocam e cada vez mais agente se perde nos pensamentos e posicionamentos. No ultimo debate, o tema foi mutilação feminina (observe já o termo empregado), a grande África coberta por essa pratica, crianças desde o cinco anos privadas da vida sexual, centenas mortas por hemorragia, infecção, etc. É realmente bárbaro. Como um ocidental pode ver isso de modo natural? Não, não dá! Parece obvio que isso é uma prática desumana e machista, dominação até a última gota de sangue das mulheres no mundo. Mas isso só na África? Não, isso no também no século XIX nos EUA, realmente chocante. Tudo bem que visto os pontos funcionais para cada sociedade, a condição histórica da população, a tradição, cultura, valores agente compreenda o motivo de 140 milhões de mulheres (quase a população brasileira) “aceitarem” a situação. Na minha turma de Ciências Sociais (UFPE), tem uma africana ( Guiné-Bissau), alguns dias depois, vou eu, conversar com a guineana sobre seu país, fico mais chocado em saber que lá não tem universidade pública na área de humanas, e que alias a primeira universidade pública é inaugurada depois de 2000, e opera em uma situação lastimável. Também soube que o procedimento de mutilação feminina foi proibido no país, com isso o número de mulheres que morrem aumentou, já que continuam fazendo clandestinamente, em suas próprias casas, com facas, vidro, ou pedaços de metal. Há também a prática coletiva, várias crianças são circuncidadas juntas. Pareceu-me obvio que pra ela era uma verdadeira bênção estar no Brasil, mesmo assim, a pergunta inicial deveria ser feita, pra que o conjunto de outras prosseguisse: “Quando terminar o curso você vai ter que voltar pra África?”, ela, “sim”, eu continuo, “você gostaria de ficar no Brasil?”, “não”, depois dessa resposta o conjunto de outras perguntas que já se encontravam formuladas se perderam. Ela quer voltar pra Guiné-Bissau? Um país que 44,8% da população é analfabeta, está em 10° lugar em mortalidade infantil mundial (112,7/mil) e uma expectativa de vida de 45 anos? Então eu continuo com perguntas totalmente improvisadas, “mas… tem trabalho lá pra cientista social?”, “não, mas agente dá um jeito”. Então me vem na mente a única possibilidade daquilo está acontecendo, uma luz apareceu e a explicação parecia agora clara, “Ah, você deve está com muita saudade da família e amigos, não é?”, ela já parecendo cansada da idiotice ocidental: “não é isso, eu estou com saudade da ÁFRICA”.
E por um momento eu penso em ter ouvido os pensamentos dela dizendo: “vocês nunca vão entender”.
Por Énderson Carvalho.










